A nova temporada de campo terá como foco coletar testemunhos de sedimentos com dois a três metros para datação e análise química. O astrobiólogo Dale Andersen, do SETI Institute, descreve os planos em uma prévia da expedição publicada inicialmente em 16 de outubro e republicada pelo SETI em 21 de outubro de 2026.
O itinerário previa saída dos Estados Unidos em 19 de outubro, chegada à Antártida por volta do dia 25 e depois uma viagem terrestre até o lago. São movimentos programados, sujeitos ao clima e à logística. A prévia não confirma que a equipe chegou ao lago.
Um lago vivo sob gelo permanente
O lago Untersee fica na Terra da Rainha Maud, na Antártida Oriental, sob uma cobertura permanente de gelo. O relato da NASA sobre o lago, de março de 2026, descreve gelo de dois a quatro metros de espessura e águas com quase 170 metros de profundidade. A luz solar atravessa o gelo e sustenta micróbios fotossintéticos abaixo dele.
O fundo do lago contém cones em camadas, macios e incomumente grandes, construídos por comunidades microbianas. Andersen e colegas descobriram essas estruturas em 2008. Elas lembram estromatólitos antigos, formações em camadas associadas à vida microbiana primitiva, e não uma descoberta deste outubro.
O projeto StromatoLife do Museu de História Natural descreve cones com superfície pigmentada de cianobactérias sobre camadas alternadas de sedimentos e matéria orgânica. Cianobactérias usam a luz solar para produzir alimento. As estruturas permitem investigar como comunidades vivas formam padrões semelhantes aos preservados em rochas antigas.
Micróbios vivos com idade aparentemente antiga
Datar os sedimentos é difícil porque o derretimento glacial fornece dióxido de carbono antigo, enquanto o gelo limita a troca com a atmosfera. Os micróbios incorporam esse carbono durante o crescimento.
Andersen relata que tapetes microbianos superficiais vivos podem, assim, apresentar idades aparentes por radiocarbono de cerca de 10 mil anos. Esse efeito de reservatório impede que uma medição isolada estabeleça com segurança quando uma camada se formou. A equipe planeja datações independentes no Japão, incluindo métodos de luminescência, para reconstruir a história do lago.
A distinção vai além da Antártida. Antes de interpretar uma idade aparente como história biológica, pesquisadores precisam entender de onde veio o material medido. Carbono antigo pode entrar em um organismo vivo sem tornar o próprio organismo milenar.
A ligação com Encélado está nas águas escuras
A bacia sul do lago contém uma camada sem oxigênio e rica em metano. Um estudo de 2022 na Scientific Reports investigou comunidades microbianas a 92 e 99 metros de profundidade e nos sedimentos, identificando potencial genético para várias vias químicas, incluindo os metabolismos do metano, enxofre e nitrogênio.
Esse habitat escuro é diferente dos tapetes sustentados pela luz solar. Pesquisadores o estudam como possível análogo de Encélado, a lua gelada de Saturno, onde qualquer vida em um oceano enterrado precisaria de energia independente da chegada de luz solar à água.
A comparação trata de condições ambientais e estratégias de sobrevivência microbiana. Ela não demonstra organismos em Encélado nem que seu oceano reproduza esse lago. Nosso guia sobre mundos oceânicos examina a busca mais ampla por água habitável sob superfícies geladas.
Como reconhecer um vestígio de vida
A pesquisa do museu combina imagens com análises de DNA e RNA para examinar organismos, genes e interações na construção dos cones. Comparar camadas pode ligar uma estrutura visível aos processos biológicos que a produziram.
Essa ligação é central para interpretar uma possível bioassinatura, uma característica que pode registrar atividade biológica. Uma forma impressionante, sozinha, deixa dúvidas sobre sua origem. Medir seu material, entorno e processo de formação permite testes adicionais.
Estudos sobre extremófilos e os limites da habitabilidade exploram como organismos terrestres toleram condições severas. Untersee oferece um local para examiná-los junto às estruturas e aos sedimentos que deixam.
O que esta expedição pode estabelecer
Novos testemunhos podem melhorar a cronologia do lago e revelar mudanças químicas e biológicas. Os resultados descreveriam um ecossistema terrestre e fortaleceriam as comparações usadas para investigar possível vida sob a superfície de outros mundos.
Por enquanto, o desenvolvimento confirmado é um plano de pesquisa publicado. A coleta, as análises de laboratório e novas conclusões ainda estão por vir. Untersee oferece um local exigente para testar o reconhecimento da vida quando seus vestígios são sutis, o ambiente é desconhecido e a idade aparente engana.
